4. ECONOMIA 24.4.13

1. UM FALSO DILEMA
2. UMA HISTRIA SEM FIM

1. UM FALSO DILEMA
Estudos internacionais e a experincia brasileira comprovam: tolerar a inflao reduz as perspectivas de crescimento a longo prazo.
MARCELO SAKATE

     A deciso do Banco Central de elevar a sua taxa bsica de juros, a Selic, na quarta-feira passada, representou a retomada do uso do instrumento mais eficaz para manter a inflao nas metas estabelecidas. O governo vinha utilizando paliativos, como a reduo de impostos de alguns produtos, para tentar conter a alta de preos. Mas a frmula, como se aprende no curso bsico de economia, no funcionou. Por isso, a ao do BC j era esperada pelo mercado. A Selic foi elevada  de 7,25% para 7,50% ao ano e poder subir novamente no prximo ms. O BC indicou que agir com "cautela", evidenciando a opo por um ajuste suave nos juros. Para a equipe econmica, o combate  inflao deve ser feito de maneira a no afetar exageradamente o ritmo de crescimento do PIB. Essa poltica est ligada  velha crena de que um pouco de inflao no faz mal  economia, porque ela seria favorvel ao ritmo mais acelerado de crescimento. Trata-se de uma tese que no resiste s evidncias histricas e analticas. 
     Diferentes estudos demonstraram que o aumento da inflao afeta negativamente a expanso da economia a longo prazo. O economista Robert Barro, da Universidade Harvard, analisou os dados de 100 pases entre 1960 e 1990 e concluiu que uma alta de 10 pontos porcentuais na inflao anual resulta na reduo de 0,4 a 0,6 ponto percentual na taxa de investimento e na queda entre 0,2 e 0,3 ponto percentual no crescimento do PIB per capita. Os economistas Javier Andrs e Ignacio Hernando, autores de Inflao atrapalha o crescimento econmico? Evidncias da OCDE", avaliaram que a queda na inflao em 1 ponto percentual aumenta entre 0,5 e 2 pontos percentuais a renda per capita. No Brasil, um estudo da Fecomercio-SP  analisou nmeros do PIB e da inflao a partir de 1995 e chegou a concluses semelhantes. Em resumo, a alta nos preos no faz o pas crescer. Isso ocorre porque o aumento na inflao reduz o poder de compra dos consumidores e inibe os investimentos no setor produtivo, dois fatores que pesam negativamente na taxa de expanso do PIB. Manter a inflao em patamares baixos e previsveis , portanto, um pr-requisito ao crescimento sustentvel. Quando o pas avana em ritmo superior ao de sua capacidade, a oferta de produtos e servios no acompanha a demanda, e os preos inevitavelmente comeam a subir. Assim, o crescimento no se sustenta e, como resultado, o PIB cai.  o que mostra o grfico abaixo. 
     Acionar os juros para trazer a inflao de novo para a meta tem um custo recessivo maior do que a alternativa mais sbia, que teria sido baixar os juros com menos mpeto poltico e mais qualidade tcnica nos ltimos dois anos. Agora a realidade vai morder. Afirma o economista Alexandre Schwartsman, ex-diretor do BC e professor do Insper: "Trazer a inflao para o centro da meta implica baixo crescimento por um perodo, e isso o governo no quer, ainda mais com as eleies no ano que vem". A inflao atingiu 6,6% no ms passado. Para que o ndice retorne ao centro da meta oficial, 4,5%, o mercado estima que a Selic teria de ser de 10%.  um cenrio no qual ningum aposta. A avaliao  que o governo insistir no gradualismo na subida dos juros  quando teria sido mais prudente valer-se dele na descida. 
     Mesmo com o tomate, feito smbolo da inflao, tendo voltado a custar 5 reais o quilo no supermercado, as presses inflacionrias esto agindo na economia. Uma alternativa clssica aos juros mais elevados seria a conteno do avano nos gastos pblicos improdutivos. A receita foi levada recentemente  presidente por trs economistas: Delfim Netto, Luiz Gonzaga Belluzzo e Yoshiaki Nakano. "Se h excesso de demanda, tem de cortar a demanda pblica, e no a privada", disse Delfim Netto em um seminrio.  um remdio menos amargo no qual o governo tambm parece no acreditar. 
     O superavit fiscal primrio, o montante de dinheiro que sobra no caixa dos governos depois das despesas oramentarias,  um bom indicador da seriedade em cortar gastos pblicos. Quando o superavit cresce,  sinal de que o governo est economizando mais. Com isso, ele conquista credibilidade junto aos credores e pode pagar juros mais baixos, j que demonstra no apenas vontade de honrar seus compromissos, mas tambm amplia a possibilidade de faz-lo. Esse indicador no Brasil tem cado. De 3,1% do PIB, meta considerada tranquilizadora, o superavit primrio est em queda e dever encerrar o ano abaixo de 2% do PIB. Sem ajuda no campo fiscal, o mais provvel  que o BC vai ter de acionar de novo a sua bateria de juros.

INFLAO NO TRAZ CRESCIMENTO
Quando o PIB brasileiro cresce acima de seu potencial, a inflao entra em trajetria de alta e, na sequncia, o ritmo da economia diminui.

2004
Inflao (IPCA, acumulado em doze meses): 7,71%
Crescimento do PIB (variao anual) [taxa acumulada nos ltimos quatro trimestres em relao aos quatro trimestres imediatamente anteriores]: 1,6%

2005
Inflao (IPCA, acumulado em doze meses): 8,07%
Crescimento do PIB (variao anual) [taxa acumulada nos ltimos quatro trimestres em relao aos quatro trimestres imediatamente anteriores]: 5,7%

2007
Inflao (IPCA, acumulado em doze meses): 2,96%
Crescimento do PIB (variao anual) [taxa acumulada nos ltimos quatro trimestres em relao aos quatro trimestres imediatamente anteriores]:

2008
Inflao (IPCA, acumulado em doze meses): 6,41%
Crescimento do PIB (variao anual) [taxa acumulada nos ltimos quatro trimestres em relao aos quatro trimestres imediatamente anteriores]: 6,6%


2009
Inflao (IPCA, acumulado em doze meses): 4,17%
Crescimento do PIB (variao anual) [taxa acumulada nos ltimos quatro trimestres em relao aos quatro trimestres imediatamente anteriores]: 2,9%; -1,4%; -0,3%


2010
Inflao (IPCA, acumulado em doze meses): 
Crescimento do PIB (variao anual) [taxa acumulada nos ltimos quatro trimestres em relao aos quatro trimestres imediatamente anteriores]: 7,6%


2011
Inflao (IPCA, acumulado em doze meses): 7,31%
Crescimento do PIB (variao anual) [taxa acumulada nos ltimos quatro trimestres em relao aos quatro trimestres imediatamente anteriores]: 4,9%


2012
Inflao (IPCA, acumulado em doze meses): 4,92%
Crescimento do PIB (variao anual) [taxa acumulada nos ltimos quatro trimestres em relao aos quatro trimestres imediatamente anteriores]: 0,9%


2013
Inflao (IPCA, acumulado em doze meses): maro 606%
Crescimento do PIB (variao anual) [taxa acumulada nos ltimos quatro trimestres em relao aos quatro trimestres imediatamente anteriores]: 

Fonte: IBGE


2. UMA HISTRIA SEM FIM
Documentrio narra a evoluo recente na economia brasileira e analisa as deficincias e os obstculos a ser superados.
ANA LUIZA DALTRO

     Os brasileiros j conviveram com inflao superior a 80% em um nico ms e acima de 5000% ao ano. Eram os tempos da hiperinflao. Pode parecer um excessivo preciosismo, portanto, alertar para o perigo de a inflao brasileira manter-se hoje acima de 6% ao ano. Mas o excelente documentrio O Brasil Deu Certo. E Agora?, idealizado pelo economista Malson da Nbrega, ex-ministro da Fazenda, scio-fundador da Tendncias Consultoria e colunista de VEJA, mostra quanto foi demorado, difcil e tortuoso conquistar a atual estabilidade macroeconmica brasileira. O filme, que estrear em cinemas paulistanos no prximo dia 3 e chegar a outras capitais brasileiras a partir do dia 10, sintetiza, em pouco mais de uma hora, uma srie de preciosos depoimentos de figuras centrais da poltica e da economia brasileiras nas ltimas dcadas. Nomes como os ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e Jos Sarney, os ex-ministros Antonio Delfim Netto, Ozires Silva e Pedro Malan e os ex-presidentes do Banco Central Prsio rida e Armnio Fraga, entre outros, no s nos ajudam a entender a histria da economia brasileira como fornecem testemunhos de momentos crticos sentidos na pele pelos personagens. 
     Da industrializao dos anos 30 ao progressivo combate ao desequilbrio nas contas pblicas recorrente em diferentes fases da economia brasileira, o documentrio narra a trajetria de avano nas instituies que culminou no Brasil atual, com estabilidade poltica e uma economia equilibrada e mais aberta  concorrncia internacional. Boa parte do documentrio foca a batalha contra a hiperinflao. O ex-presidente Jos Sarney, por exemplo, recorda o insucesso do Plano Cruzado, a primeira tentativa de derrotar a inflao. Relembra Sarney: "(O brasileiro) tinha a sensao seguinte: no princpio do ms ele era rico. No fim do ms ele era pobre". O congelamento do Cruzado funcionou por pouco tempo, e em poucos meses a credibilidade do plano estava arruinada. A tentativa trouxe lies para que a estabilidade viesse finalmente com o Real. 
     Na avaliao otimista de Malson da Nbrega, o Brasil obteve avanos institucionais e conquistou a estabilidade, e so pequenos os riscos de um retrocesso tanto poltico quanto econmico. Mas ele afirma: "O Brasil deu certo como a semente que vingou. Mesmo nos momentos mais difceis, alguma coisa foi ficando. O pas construiu instituies que formaram uma plataforma. E dessa plataforma ns vamos decolar. Vamos discutir a velocidade, a altura que vai atingir esse avio". Para ser uma nao verdadeiramente desenvolvida, o ritmo de avano precisa ser acelerado. "O progresso s vezes esbarra de uma maneira irritante na inrcia da paralisia da esfera poltica", diz o ex-presidente do Banco Central Gustavo Franco, que aponta os inmeros entraves ainda existentes: "infraestrutura, educao, produtividade baixa, impostos, legislao trabalhista". So a lembrana de que ainda est longe de ter chegado ao fim a histria do avano econmico e social brasileiro.
O Brasil construiu instituies que formaram uma plataforma. O risco  perder oportunidades.  crescer pouco." - MALSON DA NOBREA, ex-ministro da Fazenda.
Sabia que estava colocando minha cabea na guilhotina. No Plano Cruzado, ns todos estvamos no mundo sem saber qual seria o resultado.  JOS SARNEY, ex-presidente da Repblica.
Queremos uma sociedade mais aberta e mais democrtica? Ou mais estatista? D para crescer mais depressa? Esses so nossos dilemas.  FERNADO HENRIQUE CARDOSO, ex-presidente da Repblica.
Nunca houve milagre. Milagre  efeito sem causa.  DELFIM NETTO, ex-ministro da Fazenda, sobre as reformas feitas durante o governo militar.
Dar certo (como pas) traz a ideia de que isso  uma estao a que se chega. Mas no existe uma estao.  uma jornada.  PEDRO MALAN, ex-ministro da Fazenda.
No vejo nenhuma razo para o governo se meter em trapalhadas que nos tragam o caos macroeconmico.  uma conquista da sociedade." - ARMNIO FRAGA, do Banco Central.
Tivemos uma recesso curta (aps a crise de 2008) e voltamos a crescer de forma ininterrupta. O Brasil hoje  credor internacional." - HENRIQUE MEIRELLES ex-presidente do Banco Central.


